Apresentação

Há exatos cem anos, os bolcheviques tomavam o poder político na Rússia e o entregavam aos sovietes. A edição n. 29 da Outubro é dedicada à memória deste dia que abalou o mundo.

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Há exatos cem anos, os bolcheviques tomavam o poder político na Rússia e o entregavam aos sovietes. Neste dia singular, a revolução de Outubro de 1917 transformaria definitivamente a vida das classes sociais daquele país periférico e, em seguida, a vida de todos os países do mundo. Depois de um século, esta revolução permanece um dos maiores enigmas da história das classes subalternas em escala global. Por meio dela, alguns dos mais importantes dilemas culturais, políticos e econômicos da modernidade foram profundamente abalados e transformados. Questões como o lugar das mulheres, da sexualidade e etnias na nova sociedade, o papel das instituições políticas e dos modelos de representação, a regulação do trabalho e da economia, as transformações da vida cotidiana, da cultura e das artes. A revolução russa, suas promessas, impasses e inflexões, seguiu viva nas mentes e corações de gerações inteiras de intelectuais e ativistas políticos, bem como na simbologia e cultura populares ao redor do globo. Cem anos se passaram e apesar dos apologetas do “fim da história” e da derrota final daqueles desejos revolucionários, Outubro segue sendo uma experiência viva e rica de consequências para quem dela se aproxima.

Em 2018, a revista Outubro completará duas décadas de existência. Nascida dos escombros do fim da URSS e da vitória do projeto neoliberal no Brasil e ao redor do mundo, esta iniciativa editorial se propôs o desafio da resistência ao triunfalismo das ideias prontas e do discurso da inevitabilidade capitalista. Ao longo destes vinte anos, sobreviveu nas margens, organizou os vencidos, encorajou os resistentes. Este segue sendo seu desafio.

Joseph Buttigieg abre este número com uma importante reflexão desafios filológicos e políticos da leitura e pesquisa sobre os escritos de Antonio Gramsci passados oitenta anos da morte do revolucionário sardo. Em seguida, Sue Ferguson e David McNally recuperam e discutem o valor das ideias feministas de Lise Vogel, seu vínculo com o marxismo crítico e os ideais socialistas para responder à pergunta: é possível uma teoria feminista unitária? A problemática de gênero também abre um conjunto de artigos voltados ao tema do trabalho. Eloisa Betti discute a relação entre gênero e trabalho, em especial as afinidades históricas entre o lugar das mulheres no mundo da exploração econômica e a precarização de sua condição no interior da classe trabalhadora.

Michael Burawoy escreve sobre as relações laborais e a classe trabalhadora como objetos de uma sociologia pública. Para tal, revisita criticamente sua própria atividade intelectual como pesquisador da vida das classes subalternas e de sua transformação ao longo do tempo. Em artigo sobre o trabalho em perspectiva global, Marcel van der Linden discute os contornos complexos das classes trabalhadoras ao redor do mundo no contexto atual, de grande transformação de suas características sociais, econômicas e mesmo culturais.

O lugar da obra de Bertolt Brecht na resistência cultural e política ao fascismo é o objeto de investigação do artigo de Lindberg Filho. Neste, arte e política trocam olhares cúmplices, reconhecendo-se mutuamente. Carlos Zacarias de Sena Júnior fecha o bloco de artigos do presente número com uma revisão crítica da literatura sobre os comunistas no Brasil para explorar as possibilidades de uma historiografia sobre os grupos e ideias comunistas entre nós.

Na seção Às margens da revolução russa, planejada para as edições da Outubro para o ano de 2017, Dan Healey apresenta ao público brasileiro uma rica reconstrução da transformação radical da sexualidade popular na Rússia do contexto da I Guerra Mundial e seu impacto na Revolução de 1917 e na Guerra Civil que se seguiu.

Não deixe de ler, também, as resenhas ao final desta edição.

A Outubro gostaria, por fim, de agradecer a Camila Góes pela colaboração com a Secretaria de Redação da revista no biênio 2015-2017.

Boa Leitura!

Secretaria de Redação

Revista Outubro

Sumário

Artigos

Ler e estudar Gramsci no Novo Milênio

Joseph Buttigieg 

Universidade de Notre Dame (Estados Unidos)

 

Capital, força de trabalho e relações de gênero

Susan Ferguson

Universidade Wilfrid Laurier (Canadá)

David McNally

Universidade de Toronto (Canadá)

 

Gênero e trabalho precário em uma perspectiva histórica

Eloisa Betti

Universidade de Bolonha (Itália)

 

Manufacturing Consent revisitado: uma nova aproximação

Michael Burawoy

Universidade da Califórnia-Berkeley (Estados Unidos)

 

O trabalho em perspectiva global:  um novo começo

Marcel van der Linden

Universidade de Amsterdã (Holanda)

 

Brecht e o realismo da resistência ao fascismo

Lindberg Filho

Universidade de São Paulo (Brasil)

 

Podemos escrever uma história dos comunistas brasileiros?

Carlos Zacarias de Sena Jr.

Universidade Federal da Bahia (Brasil)

 

Às margens da revolução russa

Amor e morte: transformando sexualidades na Rússia (1914-1922)

Dan Healey

Universidade de Oxford (Reino Unido)

 

Resenhas

LOSURDO, Domenico. Guerra e Revolução: o mundo um século após Outubro de 1917. São Paulo: Boitempo, 2017.

Por Demian Melo

 

MARANHÃO, Carlos. Roberto Civita. O dono da banda. A vida e as ideias do editor da Veja e da Abril. SP, Companhia das Letras, 2016.

Por Carla Luciana Silva

 

SENA JR., Carlos Zacarias (org.). Capítulos de história dos comunistas no Brasil. Salvador: UFBA, 2016.

Por Lucas de Oliveira

 

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

Por Rafaela Cyrino

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