[Resenha a:] SENA JR., Carlos Zacarias (org.). Capítulos de história dos comunistas no Brasil. Salvador: UFBA, 2016.

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Lucas de Oliveira

A publicação, no atual contexto, de um livro sobre história dos comunistas no Brasil é importante em muitos sentidos. Em primeiro lugar, porque nesta obra a diversidade de temas se ajusta a uma multiplicidade de perspectivas que permite iluminar as transformações porque passou, em sua longa trajetória, o objeto a que estão dedicados os textos dos autores e autoras aqui reunidos: o PCB. Além disso, estes capítulos – que são plurais – fazem parte de um esforço combatente contra o esquecimento e a desagregação que busca, a todo tempo, avançar contra a história das experiências de lutas e organizações populares.

Organizada por Carlos Zacarias de Sena Júnior, professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia, a coletânea reúne uma série de onze artigos produzidos nos marcos do Seminário sobre os Comunistas no Brasil realizado na Bahia em junho de 2012, recordando o cumprimento dos 90 anos do PCB. Os textos aparecem agrupados em três partes definidas cronologicamente: I – “Das origens à Aliança Nacional”; II – “Resistência e legalidade”; e por último III – “Do manifesto de Janeiro de 1948 à Declaração de Março de 1958 e além”. A amplitude cronológica abarcada por estes Capítulos torna possível a realização de uma apreciação crítica a respeito da trajetória dos comunistas no país, fundamental para o aprendizado político a que Marcos Del Roio faz referência no prefácio: “Não só para saber dos erros, das derrotas, mas também dos momentos de glória e luta heroica contra a exploração capitalista e a opressão colonial”.

Na Introdução, a pena de Carlos Zacarias ergue-se uma vez mais contra as armadilhas das leituras ideologicamente seletivas sobre o passado, já bem designadas algures como revisionistas. Partindo de uma reflexão a respeito das distintas interpretações sobre a Revolução Russa e seus desdobramentos, o autor chama a atenção para as importantes ausências, no mercado editorial brasileiro, de bibliografia sobre o tema. Em seguida, analisa a trajetória da historiografia sobre o PCB, avaliando suas principais tendências desde os anos 1960. Aludindo à distopia teórica lançada sobre parte historiografia a partir da debacle do chamado “socialismo real”, o autor demonstra como nas últimas duas décadas assistiu-se a um giro conservador em algumas publicações sobre o tema. Por isso, o questionamento que dá título a seu texto “Por que uma história dos comunistas brasileiros?”, soa também como um manifesto, um demarcador de posições que serão exploradas ao longo do livro. Inserindo estes Capítulos nos debates intelectuais vigentes, Carlos Zacarias de Sena Júnior lembra que “não podemos conceder essa história tão cara aos militantes e à própria historiografia brasileira (…) a uma abordagem que inspire, nem de longe, algum tipo de anticomunismo”.

A primeira parte do livro, “Das origens à Aliança Nacional Libertadora (ANL)”, é inaugurada por um texto de Marly de Almeida Gomes Vianna intitulado “Observações sobre ideias socialistas, anarquistas e comunistas na imprensa (1902-1924)”. Conhecedora do tema e autora de obras importantes sobre o assunto, Vianna analisa os veículos de imprensa vinculados a essas distintas vertentes do incipiente movimento operário brasileiro buscando entender como aqueles trabalhadores compreendiam sua situação e que tipo de política buscaram levar a cabo no enfrentamento da dominação capitalista. Assim, através da leitura de panfletos, volantes, revistas como Movimento Comunista e de jornais de grande tiragem como A Guerra Social, Na Barricada, Guerra Sociale, A Lanterna e A Voz do Trabalhador, Marly Vianna consegue identificar importantes diferenças nas análises conjunturais, nas estratégias de construção orgânica e na elaboração de projetos políticos por cada uma dessas correntes. Aponta também para aspectos em comum: o esforço árduo para constituir-se enquanto vanguarda política de uma classe em formação.

No capítulo seguinte, “Notas sobre as primeiras movimentações comunistas na Bahia e na Região Cacaueira”, Marcelo da Silva Lins, professor da UESC, procura acompanhar os primeiros passos do PCB na Bahia, apontando para a dificuldade em definir uma “certidão de nascimento” para a organização no estado. Nesse sentido, lançando mão de livros de memórias de antigos militantes e de pesquisa documental nos arquivos da repressão, o autor procura reconstruir a trajetória inicial dos comunistas na Bahia desde meados de 1925, quando das primeiras filiações formais, até as conflituosas relações estabelecidas com a ANL dez anos mais tarde.

A trajetória de Antônio Maciel Bonfim é abordada no artigo de Raimundo Nonato Pereira Moreira em perspectiva biográfica. Investigando a formação política e o percurso intelectual de seu personagem, o autor procura operar uma reavaliação “do itinerário de um indivíduo transformado em farrapo humano pelo aparelho repressivo” e, além disso, “submetido a um impiedoso processo de liquidação política pelos companheiros de partido”. Assim, é lançando mão de fontes documentais memorialísticas e jornalísticas que Moreira escreve o seu “Antônio Maciel Bonfim ou ‘o celebre Miranda’: entre a história e a memória”.

A primeira parte do livro se encerra com o texto “1935: A Manhã e a ‘Campanha dos 50” de Dainis Karepovs a respeito da chamada “Campanha dos 50%”. Tomando como fonte principal o jornal carioca A Manhã, cuja linha editorial esteve fortemente influenciada pela atuação dos comunistas no período analisado, o autor se aproxima das formas de construção do movimento de estudantes na luta por “abatimentos nos meios de locomoção e diversão”. Deslindando as formas específicas de vinculação entre o movimento e a ANL, Karepovs acompanha a trajetória da Campanha entre agosto e novembro de 1935, quando começa a se desarticular, em partes por conta das férias escolares, em partes pela utilização crescente do “tacão da repressão política”.

“O território do tornar-se: pelas ruas e esquinas o intelectual baiano se fez comunista”, escrito por Rafael Fontes, inaugura a segunda parte do livro, enfrentando reflexões a respeito da conformação urbana da cidade de Salvador na primeira metade do século XX, acerca dos intelectuais em geral e dos intelectuais comunistas e do rol por eles ocupado naquele cenário.

Carlos Zacarias de Sena Júnior colabora, nesta segunda parte do livro, com o artigo intitulado “O esteio da ordem: comunistas, greves e sindicatos no Brasil (1945-1948)”. Desde o título, o artigo aponta para os conflitos enfrentados pelo PCB a partir de sua aposta na perspectiva de coexistência pacífica adotada pelos Partidos Comunistas vinculados a Moscou, associada à tentativa de aliança com setores tidos como progressistas da burguesia em nome do desenvolvimento nacional. Nesse sentido, ao longo do texto, Zacarias demonstra como a defesa de soluções políticas e econômicas “dentro da ordem e do respeito mútuo entre as classes” por parte da organização coincidia com sua política de colaboração de classes e de defesa irrestrita do que entendia ser a “paz democrática”.

Em seguida, Raquel Oliveira Silva analisa a implantação, em Salvador, dos Comitês Populares Democráticos (CPD) a partir de 1945 em artigo intitulado “O PCB e os Comitês Populares Democráticos em Salvador (1945-1947)”. Utilizando periódicos publicados no período, inclusive O Momento, vinculado ao Partido, Silva discute a forma como esses Comitês constituíram um esforço por parte do PCB em se aproximar de setores populares não pertencentes aos espaços sindicais.

“Insubordinação das bases do PCB frente às orientações dos Manifestos de Janeiro de 1948 e Agosto de 1950”, escrito por Ede Ricardo de Assis Soares, já faz parte da terceira parte do livro. Nesse texto, o autor discute as discordâncias surgidas no PCB de Alagoinhas, cidade do interior baiano, com relação às alterações dos Manifestos de Janeiro de 1948 e Agosto de 1950, demonstrando peculiaridades interessantes no que diz respeito à atuação dos comunistas em pequenos núcleos e cidades do interior.

Na sequência, o texto assinado por Frederico José Falcão, “A declaração de Março de 1958 na história do PCB”, se debruça sobre o horizonte político adotado pela organização a partir de finais da década de 1950. Analisando documentação interna do Partido e utilizando entrevistas realizadas a seus antigos membros, o autor procura compreender a repercussão dos debates ao redor da famosa Declaração no interior do partido, atentando para as transformações que ela provocou.

Em “A contradição principal: PCB e outros comunistas entre a ‘classe’ e a ‘nação’ (1956-1959)”, o professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, Eurelino Coelho, analisa as formulações em torno da chamada “Questão Nacional” entre marxistas brasileiros. Acompanhando os debates entre os marxistas do PCB e “os outros” (vinculados à Polop e, principalmente, à Liga Socialista Independente), o autor busca demonstrar – refutando afirmações em contrário – que essa além de ter sido uma questão frontalmente enfrentada pelo marxismo brasileiro, na prática, significou muito para a definição da estratégia revolucionária adequada à situação brasileira.

Por fim, o artigo de Muniz Gonçalves Ferreira “Um capítulo não escrito da história do comunismo brasileiro: a trajetória e as funções da Revista Internacional (Problemas da Paz e do Socialismo) no período: 1958-1990” encerra o livro com uma interessante análise sobre o papel cumprido, ao longo de uma extensa trajetória, pela Revista Internacional (Problemas da paz e do Socialismo) avaliando as relações entre o que ali circulava e as políticas e concepções adotadas localmente pelo PCB, destacando o papel formador e organizador da revista..

Pela diversidade dos temas que aborda e das questões que contêm, não é hiperbólico dizer: este é um livro importante. Lançado num contexto em que amplos setores da sociedade flertam com visões de mundo apoiadas no anticomunismo mais recalcitrante, o panorama que a obra oferece demarca posições políticas. No oceano da história dos comunistas, aqui aparecem textos em diferentes níveis de profundidade, de alcance, de horizonte. Todos eles, no entanto, a recordar que “o mar da história é agitado” e a contribuir no resgate de experiência dos trabalhadores em sua luta por emancipação.

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