Quando do lançamento de sue número 1, em 1998, o Manifesto editorial que sustentava o projeto da revista Outubro alertava para a necessidade da intervenção prática e teórica para aqueles que recusavam a paralisia do pensamento único. Um conjunto de questões definiam, mas não limitavam. esse campo de intervenção: “a análise da crise do capitalismo e do modelo neoliberal; a análise crítica das tradições social-democratas e estalinistas que prevaleceram no campo da esquerda; o resgate histórico das experiências revolucionárias; o questionamento da democracia burguesa; as transformações no processo de trabalho e a história do movimento operário.” (Manifesto. Outubro, n. 1, 1998, p. )

Chegamos agora ao número 10 da revista. Em um país no qual é grande o número de publicações de vida curta, dez edições em seis anos pode ser considerado um marco, além de evidenciar a regularidade da revista. Mas é de se destacar, principalmente, a coerência mantida pela revista ao longo desses anos e a atualidade dos desafios que ela se propunha a enfrentar. Certamente muita coisa mudou ao longo desses últimos anos: a crise do capitalismo assumiu contornos renovados e as respostas políticas a essa situação ganharam novas feições. Guerras, crises, revoluções e contra-revoluções invadiram o cotidiano neste início de século XXI. Contudo, entendemos que as respostas políticas a essa situação não podem prescindir estar dissociado do progresso teórico. Por isso, acreditamos que este número de nossa revista cumpre um papel muito significativo ao oferecer um conjunto de textos voltados para a análise da complexa relação envolvendo a teoria revolucionária e a história do movimento socialista em suas múltiplas manifestações.
Neste sentido, o leitor encontrará no artigo de Nicolas Tertulian dedicado à análise do problema da subjetividade em Marx uma importante contribuição sobre um tema cada dia mais atual: a concepção marxiana da relação entre exigências históricas e exigências universais da condição humana. Em um momento em que a reação terrorista do império estadunidense ao Islã é objeto de intensa propaganda, Luís Antonio Groppo nos oferece um ensaio a respeito das reflexões de Marx sobre o assim chamado “Oriente”. Por sua vez, Daniel Bensaid, conhecido intelectual e filósofo marxista francês, nos presenteia com um erudito artigo de crítica à mercantilização totalitária das relações sociais e o conceito de propriedade.

Duas datas de fundamental importância não poderiam ser esquecidas por nossa revista e encontram-se bem representadas por artigos críticos e instigantes. O aniversário dos quarenta anos do golpe de 1964, objeto de reflexão de Sonia Mendonça, e os oitenta anos da morte do principal líder revolucionário do século XX, Vladimir Lênin, cuja atualidade do legado teórico e político é discutida por Cláudio Gurgel. Outros “clássicos” do pensamento revolucionário encontram-se presente nas páginas de Outubro. Analisar a leitura e a recepção de Gramsci no Brasil e sua relação com o pensamento de Leon Trotsky traduz-se no objetivo do artigo de Carlos Zacarias F. de Sena Júnior. Finalmente, a relação entre a esquerda brasileira e o governo Lula não poderia estar ausente de nossa revista e o professor Marcos Del Roio nos oferece um interessante balanço a respeito do tema.

Na sessão de resenhas dois importantes lançamentos são discutidos. Primeiro uma obra contemporânea mas que veio para ocupar um lugar de destaque na reflexão teórica, o livro de Ellen Meiksins Wood, Democracia contra capitalismo. A, completando a sessão, antes tarde do que nunca, a resenha dos seis volumes da nova edição dos Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci. Como o leitor pode notar, a revista Outubro não se furta de intervir em problemas centrais da realidade do movimento socialista brasileiro e internacional e, ao mesmo tempo, contribuir com o desenvolvimento da teoria e da propaganda revolucionárias em nosso país. São tarefas difíceis, mas decisivas. Para todos desejamos uma boa leitura.

EDIÇÃO 10