[Resenha a:] Karepovs, Dainis. Pas de Politique Mariô! Mario Pedrosa e a Política. Cotia/SãoPaulo: Ateliê Editorial/Fundação Perseu Abramo, 2017.


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Karepovs, Dainis. Pas de Politique Mariô! Mario Pedrosa e a Política. Cotia/SãoPaulo: Ateliê Editorial/Fundação Perseu Abramo, 2017.

Por Luccas Maldonado [1]

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A segunda década do século XXI mostra-se como um momento privilegiado na temática biografias; ano-pós-ano trabalhos interessantes, ricamente documentados e cuidadosamente escritos, são publicados. Personagens como Getúlio Vargas, Mário de Andrade, Francisco Julião, Caio Prado Júnior, Lima Barreto, Carlos Marighella, Luiz Carlos Prestes e outros mais foram tangidos. Dentro dessa lista, mostra-se perceptível a atenção que as figuras da esquerda brasileira despertaram entre os escritores. Desde a publicação de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundode Mario Magalhães (2012), parece existir uma curiosidade para com esse perfil.[2]Nesse sentido, filiados históricos do Partido Comunista Brasileiro (PCB), como Prestes, Marighella e Prado Júnior, foram extensivamente e qualitativamente explorados. No interior do movimento, os trotskistas, por sua vez, ainda não haviam sido palco de grandes atenções, pelo menos até então: Dainis Karepovs (2017) veio dispor a sua contribuição por meio de uma biografia de Mario Pedrosa.

Pas de Politique Mariô! Mario Pedrosa e a Política é o segundo livro de Karepovs que se dedica à história do trotskismo brasileiro. O primeiro, que na prática é a sua dissertação de mestrado, é um amplo estudo do conflito entre a direção nacional do PCB e o Comitê Regional de São Paulo no final dos anos 1930 – processo que resultou, após intervenção da Internacional Comunista (IC), em um profundo racha na organização. Tal obra, intitulada Luta Subterrânea(2003), é um trabalho paradigmático, devido ao amplo exercício documental, nos estudos do trotskismo brasileiro e da história do Partido Comunista pós-insurreição de 1935. De sua autoria, existem também artigos em revistas acadêmicas e coletâneas; além de ser um dos organizadores, junto de Fulvio Abramo, de uma reunião de documentos ligados à história da primeira geração de trotskistas brasileiros, Na Contracorrente da História(1987). Karepovs possui também pesquisas dedicadas ao PCB e à República Velha, como a sua tese de doutoramento (2006); a apresentar, dessa forma, um considerável repertório e domínio sobre a história política brasileira.

  Pas de Politique Mariô! […] possui pouco menos do que 300 páginas. Sua composição como projeto expositivo conta com duas seções delimitadas e uma não. A primeira, a não explícita, trata-se de uma reunião de três textos introdutórios: dois de Karepovs e um rubricado pela docente da UNESP, Isabel Loureiro. As seções seguintes, intituladas “Mario Pedrosa e a Política” e “Mario Pedrosa sob o olhar emocionado de seus companheiros”, em certa medida rememoram en passant aampla coleção de História da República empreendida pelo historiador Edgard Carone na segunda metade do século XX – docente da USP que fora orientador de doutorado do autor da biografia. Em resumo, Carone dividiu o período republicano em diversos momentos e, para cada um deles, elaborou uma brochura de análises e outra de documentos.[3] Karepovsrealiza o mesmo movimento, mas em menor projeção, no seu estudo sobre Pedrosa: um espaço analítico e outro documental.[4]

  Pedrosa foi um personagem complexo. Sua trajetória caracteriza-se por duas grandes faces holísticas: uma artística e outra política. Divisão que se confunde em uma amálgama ao se encarar a sua vida. Por exemplo, a aproximação para com as concepções de esquerda deu-se concomitantemente ao acercamento do surrealismo; processo que similarmente desdobrou-se com a avant-gardeadmirada pelo biografado, a qual se ligou ao socialismo e ao protesto contra a Primeira Guerra Mundial. Os dois rostos de Pedrosa são arranjos analíticos, construídos pelos estudiosos nas suas descrições e interpretações, que não existiram na realidade objetiva. Essa particularidade constituiu-se como importante detalhe a respeito da obra elaborada por Karepovs uma vez que, na sua narrativa histórica, faz uma opção por dispor, em primeiro plano, o itinerário político desse homem, a descrever as atividades artísticas somente tangencialmente, quando incontornáveis.[5] Para o autor da investigação, existiria um sentido, um “fio de continuidade”, responsável por oferecer coerência ao percurso do biografado: a manutenção de uma posição marxista, “foi um daqueles que jamais abriram mão do marxismo” (Karepovs, 2017, p. 23). Exatamente esse longo trajeto, que comtempla todo o interim da existência de Pedrosa, é uma marca do livro: o primeiro a estudá-lo integralmente.[6]

O estudo elaborado por Karepovspossui nove capítulos organizados diacronicamente, os quais são divididos a partir de mudanças qualitativas na posição política do personagem. Inicia-se na militância de Pedrosa dentro do PCB e na sua atuação junto de Leon Trotsky, quando ajudou a organizar a Oposição de Esquerda e a IV Internacional no Brasil e na América Latina. O capítulo dedicado às conexões com o revolucionário bolchevique é o mais extenso, certamente por ser uma temática investigada anteriormente pelo autor e com considerável bibliografia acerca. Desenvolve-se com o trabalho empreendido pelo personagem no jornal Vanguarda Socialista e com a sua filiação e participação no Partido Socialista Brasileiro (PSB), a transpassar pela frequente e intensa oposição que fez a Getúlio Vargas e seus correligionários no interim.

Segue com a expulsão da legenda socialista, devido à colaboração em um outro grupo político (Ação Democrática), e pondera sobre o aprofundamento analítico desenvolvido a partir do final da década de 1950, quando começou a refletir a respeito da problemática da Revolução Brasileirae cambiou as suas leituras para um viés mais elaborado, a considerar a questão agrária, os limites da participação na democracia e a história brasileira como um processo mais amplo de embates e interesses; tal momento reflexivo levar-lhe-ia à redação de dois importantes livros, componentes de um único projeto, os quais são a magnum opus política de Pedrosa (1966; 1966). E encerra-se com o exílio, primeiro chinelo, depois francês, os estudos e escritos permeados de influência da teórica alemã Rosa Luxemburgo e a participação na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) de Mario Pedrosa. Nas últimas passagens da obra, Karepovs levanta uma interessante e polêmica interpretação a respeito do caráter que os textos de Pedrosa iriam adquirir nas suas últimas décadas. Na perspectiva do autor, o antigo militante trotskista possuiria uma expressiva originalidade na sua concepção do imperialismo, a pautar questões relacionadas com as consequências da expansão capitalista nas margens da economia mundial e o subdesenvolvimento de maneira inovadora e original; seria um uso matutino da Anschauungde Rosa Luxemburgo que somente anos depois começaria a ser explorado mais profundamente por outros intelectuais, como por exemplo por David Harvey.

O caráter seletivo da narrativa histórica traz consigo, per se, uma opção por parte do especialista do seu ofício, quer dizer, os trabalhos históricos “são, de saída, abusos do esquecimento” por elegerem aquilo que será destacado e ao mesmo tempo lançarem ao ostracismo, pela não escolha, o que suspostamente desinteressa (Ricoeur, 2007, p. 455). Perspectiva interessante, pois, pode ser manejada como um componente, conjugado com uma precisa matriz conceitual, para se fazer uma sucinta consideração acerca do local ocupado pela nova investida de Karepovs. Pedrosa foi um exemplar inspirador de um tempo e de uma sociedade, carregou na sua vida intensidades, conhecimentos e caminhos notáveis; um espírito de uma época. No entanto, é preciso indagar: o autor, por meio da documentação reunida, selecionada e evidenciada, revela o que sobre os espaços sociais ocupados e influenciados pelo personagem; ele esteve nas margens ou no centro do processo histórico; fez aquilo que lhe era esperado ou rompeu com a tendência para instituir o novo?

A opção de Karepovs preteriu um homem que, por diversas vezes, traçou o menos evidente. Elegeu ser marxista em um país no qual a sociedade civil nunca tomou formas amplas, ainda mais: foi um trotskista, a ala mais maldita das esquerdas. Abraçou a carreira de crítico de arte em um ramo secundário do jardim das musas que frequentemente destratou filhos seus. Originário da elite econômica e política brasileira, com pai dentro do parlamento, traiu a própria classe. Assim, fixou-se em uma existência pária, capaz de revelar o que foge do configurado, sobre o inesperado na armação das estruturas. A notoriedade do gênero biográfico está na capacidade de esmiuçar, pelo precisão dos contextos, os aspectos do repetitivo/dominante ou do marginal/inesperado.[7] A narrativa histórica de Pas de Politique Mariô! evidencia o segundo âmbito: a vida de um homem que, tendo tudo para seguir os rumos mais casualísticos, construiu o imprevisível. Contudo, isso não quer dizer que o estudo caia na armadilha do exclusivismo sui generis; pelo contrário, intenta explicar pela diferença o estrutural, quer dizer, pela militância socialista de uma biografia, aspectos do sistema político brasileiro e outras questões mais.

A concluir, Karepovs é autor de um trabalho interessante e qualitativo; será   provavelmente um marco nos estudos de Pedrosa, por ser o primeiro a traçar o seu itinerário do princípio ao fim. Como autor, não obstante seja distante das elaborações teóricas e prefira com maior afinidade a descrição, não cai nas ilusões e nos perigos que envolvem a escrita biográfica, como as elencadas por Pierre Bourdieu (2006). Diante das possíveis ponderações originárias desse pensador francês, o qual afirma que a vida é um processo demasiadamente longo para se procurar uma racionalidade ipso fato/em si mesma, o escritor brasileiro integra seu objeto dentro de um contexto histórico e social, a estar, portanto, mais próximo da ciência do que da literatura – assim, talvez o Mario Pedrosa de Karepovs não fosse executado pelo júri de L’Étranger (Camus, 1977). Como um exercício pioneiro, carece de proporcionalidade, passagens são ricamente exploradas e documentadas e outras rapidamente tangidas e de um exercício contextualista mais aprofundado, ele é existente conforme o enunciado, porém, necessita de raízes mais assentadas, algo mais próximo do que fez Quentin Skinner (1996; 2010) com Maquiavel, Louis Fischer (1967) com Lênin ou Jonathan Steinberg (2015) com Bismarck. Condições que certamente derivam da origem do projeto, não pensado para ser um livro unitário, mas sim uma introdução de um volume na coleção Mario Pedrosa na extinta editora Cosac Naify. Conforme o próprio autor elucida em umas das suas introduções, Pas de Politique Mariô! não pretende ser uma biografia definitiva do personagem, no entanto, a pedra fundamental de uma construção que está para ser feita.

 

Referências bibliográficas

Abramo, F.; Karepovs, D. Na Contracorrente da História: Documentos da Liga Comunista Internacionalista (1930-1933). São Paulo: Brasiliense, 1987.

Arantes, O. B. F. Mario Pedrosa: itinerário crítico. 2º ed. São Paulo: Cosaf Naify, 2004.

Bourdieu, P. “A ilusão biográfica”, in: AMADO, Janaina; FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos & Abusos da história oral. 8º ed. Rio de janeiro: FGV, 2006.

Camus, A. L’Étranger. Paris: Gallimard, 1977.

Coelho, J. M. Entrevista: Edgard Carone. A República em capítulos: como trabalha um historiador que já até o que estará pesquisando em 1980. Veja, 11 fev. 1976, p. 3-4; 6.

Fischer, . A vida de Lênin. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. 2 v.

Karepovs, D. Pas de Politique Mariô! Mario Pedrosa e a Política. Cotia; São Paulo: Ateliê Editorial; Fundação Perseu Abramo, 2017.

_____. A classe operária vai ao Parlamento: o Bloco Operário e Camponês do Brasil (1924-1930). São Paulo: Alameda, 2006.

_____. Luta subterrânea: o PCB em 1937-1938. São Paulo: Hucitec; Unesp, 2003.

Magalhães, M. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2012.

Marques, J. C. N. Solidão Revolucionária: Mario Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1993.

Martins, J. S. Florestan: Sociologia e Consciência Social no Brasil. São Paulo: Edusp, 1998.

Pedrosa, M. A Opção Imperialista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

_____. A Opção Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

Pericás, L. B. Caio Prado Júnior: uma biografia política. São Paulo, Boitempo, 2017.

_____. Os Cangaceiros: ensaio de interpretação histórica. São Paulo: Boitempo, 2010.

Reis, D. A. Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos. Cia das Letras, 2014.

Ricoeur, P. A História, a memória, o esquecimento. Campinas: Ed. UNICAMP, 2007.

Skinner, Q. As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

_____. Maquiavel. Porto Alegre: L&PM, 2010.

Steinberg, J. Bismarck: uma vida. Barueri: Amarilys, 2015.

Notas

[1] Mestrando em História na Universidade de São Paulo.

[2] Para dois títulos, além do de Magalhães, que desenvolveram interessantes estudos, cf. Caio Prado Júnior: uma biografia política. (Pericás, 2017); Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos(Reis, 2014).

[3] Para mais informações sobre o projeto de história da República de Carone, cf. Entrevista: Edgard Carone. A República em capítulos: como trabalha um historiador que já até o que estará pesquisando em 1980 (Coelho, 1976).

[4] Há de se demarcar que tal prática não é exclusiva dos dois autores, por exemplo, Luiz Bernardo Pericás (2010) fez algo semelhante em Os Cangaceiros.

[5] Para um estudo que evidencia a “face” artística de Pedrosa, cf. Mario Pedrosa: itinerário crítico (Arantes, 2004).

[6] Existem diversos estudos sobre a vida e a obra de Pedrosa, porém, todos com limitações temporais, para um exemplo, cf. Solidão Revolucionária: Mario Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil(Marques, 1993).

[7] Utiliza-se como base para essa descrição a síntese conceitual que José de Souza Martins fez das abordagens biográficas de Florestan Fernandes. “As situações ambivalentes e limites reaparecem em seus diferentes estudos sob a forma de ruptura com o conformismo e com o destino. Se por um lado as biografias que documentam o repetitivo são por ele consideradas fundamentais para a compreensão do funcionamento da sociedade, por outro são igualmente fundamentais as biografias transgressivas e as personalidades divergentes” (1998, p. 95).

[Resenha a:] SEGRILLO, Angelo. Karl Marx: uma biografia dialética. Curitiba: Prismas, 2018.


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SEGRILLO, Angelo. Karl Marx: uma biografia dialética. Curitiba: Prismas, 2018.

Por Luccas Eduardo Maldonado

Na capa da edição brasileira do Dicionário do Pensamento Marxista, organizado por Tom Bottomore (2012), está estampado um grande busto de Karl Marx (1818-1883). A face do Mouro, apelido como seus amigos lhe invocavam, circunscreve-se de fotos de György Lukács, Lenin, Friedrich Engels, Herbert Marcuse, Stalin, Rosa Luxemburgo, Mao Zedong, Walter Benjamin, Trotski e Antonio Gramsci. Nessa imagem, existe uma espécie de síntese da disputa interpretativa que, em parte do século XIX e no século XX, ocorreu para com as obras de Marx. No novo milênio, parte desse debate perdeu o seu fôlego, muito devido a derrocada do “socialismo real” e as frustrações derivadas do stalinismo. Contudo, se a reflexão está posta em segundo plano então, a trajetória e a memória do Mouro coloca-se em evidência. Diversos trabalhos a respeito de sua vida foram publicados nos últimos anos e no bicentenário alguns anunciaram-se. A vida de Karl Marx vem sendo profundamente tangida, (re)estudada e disputada por tais obras. Nessa esteira, algo novo elaborou-se faz pouco tempo. Pela primeira vez um escritor brasileiro, Angelo Segrillo, dedicou-lhe um estudo biográfico, Karl Marx: uma biografia dialética (2018).

No Brasil, existe um considerável acervo de livros traduzidos sobre a vida e a obra de Karl Marx. A reunião é tão ampla, significativa e diversificada que não se mostra viável fazer uma ou um conjunto de menções uma vez que invariavelmente realizar-se-á uma série de omissões. A produção nacional, por sua vez, expressa-se de maneira distinta: há um arranjo considerável sobre o pensamento de Marx, porém a condição coloca-se distinta sobre a sua trajetória. Mais precisamente, não existia até então um estudo que englobasse integralmente, da concepção ao epitáfio, os caminhos do Mouro. Um exemplo misto, circunscrevendo ambos os aspectos, é Karl Marx: Vida e Obra de Leandro Konder (1974). Investida interessante e pioneira, mas que acaba dedicando-se muito pouco ao itinerário do prussiano, assim não o contemplando integralmente. Além disso, o livro encontra-se profundamente desatualizado, devido a sua data recuada de lançamento e a extensa bibliografia produzida nas últimas décadas.

Angelo Segrillo, atualmente docente de História Contemporânea no Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), é um expoente raro de pesquisador na academia brasileira. Possui uma formação cosmopolita como poucos, passando por instituições dos Estados Unidos da América, Rússia, Alemanha e Brasil; trajetória que lhe ofereceu um repertório de línguas vasto, característica importante nos seus trabalhos. Em certa medida, seu percurso acadêmico é uma expressão da Guerra Fria, pois, além de frequentar os principais Estados que configuravam essa situação internacional, sua especialidade temática centra-se na história soviética; inclusive, esteve no país dos sovietes fazendo seu mestrado quando o bloco estava a colapsar.

Até poucos anos atrás, a aproximação de Segrillo com Marx ocorria fundamentalmente de forma indireta; quer dizer, engajava-se em diversos assuntos conectados ao “socialismo real” que são tangentes ao pensador alemão. Todavia, começou a lançar alguns estudos sobre o pensador prussiano, a apresentar um movimento de aproximação, nos últimos tempos. Existem dois textos interessantes que mostram o caminhar rumo ao projeto biográfico. Um deles conjuga a sua tradicional especialidade temática, a Rússia, com as suas explorações sobre a trajetória do Mouro. Tal ato resultou na redação de um artigo que sintetiza as transformações das posições de Marx diante da Rússia (2017a). A outra investigação, por sua vez a mais importante, destina-se exclusivamente a trabalhar um aspecto do “problema” Karl Marx. Mais precisamente, o escrito realiza uma síntese bibliográfica, um état de l’art, de tudo que já foi elaborado, até aquele momento, sobre a vida de Marx, ou seja, uma revisão bibliográfica das biografias do autor d’O Capital (2017b).

Karl Marx: uma biografia dialética possui significativas ligações com o estudo biográfico publicado por Segrillo. Nesse texto, o docente da USP demonstra avant la lettre, do livro em si, os caminhos que iria percorrer até a concepção da obra. Como o título do trabalho resenhado anuncia, o objetivo do historiador não foi apresentar uma análise original dos caminhos de Marx, no entanto dispor um exame de sua vida a partir da comparação, do cotejo, das investigações já publicadas. Assim, inicialmente oferece o material central que dará sentido a sua finalidade, em artigo, e depois o faz, em brochura. Interessantemente o conceito de dialética, caro para os marxistas, não é manejado na sua acepção aparente, mas diferentemente do esperado remete ao método socrático de concepção do conhecimento: confronta-se premissas em busca de uma maiêutica.

Em grande medida, a biografia de Segrillo fundamenta-se na leitura comparativa das obras predecessoras, no entanto, essa não foi a sua matriz exclusiva, somente a sua faculté maitresse. Na verdade, existe um ajustamento entre as biografias anteriores e uma reunião de documentos que serve para guiar a sua narrativa. As fontes primárias manejadas pelo autor, um conhecedor da língua alemã, originam-se majoritariamente das duas empreitadas mais consolidadas de edição dos textos integrais de Karl Marx e Friedrich Engels: Marx-Engels-Gesamtausgabe(Obras Completas Marx e Engels, Mega), tanto o projeto do início do século XX (Mega1), quanto o que até hoje se entende (Mega2). Tais originais oferecem sentido a narrativa e, com o desenvolvimento da mesma, o pesquisador pondera sobre as posições e interpretações dos outros biógrafos, não obstante também utilize em menor medida outros grupos documentais, como as epistolas de Jenny e Eleanor Marx – respectivamente esposa e filha do pensador.

  Karl Marx: uma biografia dialética é um estudo interessante. Possui méritos, principalmente no sentido de erudição do escritor, que dispõe em português diversos textos originalmente em alemão, porém concomitantemente preserva diversas limitações. A sua intenção dialética cumpre-se, todavia seria interessante uma realização mais aprofundada. Um debate que mediasse com maior fôlego os escritos biográficos pretéritos, a ponderar mais claramente e extensivamente as divergências, os conceitos e as opções feitas. Em suma, tencionar alocar os textos em quadros dentro do campo de estudos sobre a vida de Marx. A sua forma de organização e a sua escrita também poderiam ter sido melhor desenvolvidas. Preterir dispor os capítulos a partir dos espaços geográficos ocupados por Marx ao longo de sua vida gerou uma construção profundamente desproporcional, passagens ou muito grandes ou muito pequenas, que pode levar o leitor a perder-se.

A investida possui duas grandes virtudes: uma em si e outras além de si. A primeira refere-se à qualidade de divulgação do livro que, nolens volens, se tornou um título de introdução ao tema, um bom caminho preliminar para se confrontar o itinerário do Mouro, conquanto haja outros textos que igualmente possam fazê-lo. No entanto, não só, inclui-se também nesse sentido o seu caráter de pedra fundamental, isto é, o trabalho de Segrillo oferece as bases, mostra os caminhos, para aqueles que desejam desenvolver movimentos semelhantes. A segunda virtude encontra-se na posição que Karl Marx: uma biografia dialética ocupou nos estudos biográficos de Karl Marx. Nos últimos anos, um americano (Sperber, 2013), um inglês (Jones, 2016) e um alemão (Neffe, 2017) publicaram três importantes investigações sobre o pensador; mais recentemente, outro autor germânico anunciou que também prepara uma contribuição.[1]Configura-se, assim, uma disputa, que existe há muito mas parece estar intensificando-se nos últimos anos, sobre a vida e a memória de Karl Marx. Em certa medida, um brasileiro editar um trabalho nesse domínio mostra a presença e o posicionamento do interesse nacional diante dessa querela; contudo, não obstante o intento, há muito para ser feito ainda no sentido qualitativo.[2]

Referências bibliográficas

Bottomore, Tom (org.). Dicionário do pensamento marxista. 2º ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

Jones, Gareth Stedman. Karl Marx: Greatness and Illusion. Londres: Allen Lane, 2016.

Konder, Leandro. Karl Marx: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1974.

Neffe, Jürgen. Marx: Der Unvollendete. München: C. Bertelsmann, 2017.

Segrillo, Angelo. Karl Marx: uma biografia dialética. Curitiba: Editora Prismas, 2018.

_____. Karl Marx e a Revolução Russa. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 30, n. 61, p. 479-496, maio-agosto 2017a.

_____. Karl Marx: um balanço biográfico. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 43, n. 3, p. 601-611, setembro-dezembro 2017b.

Sperber, Jonathan. Karl Marx: A Nineteenth-Century Life. Nova York: Liveright Publishing Corporation, 2013.

Notas

[1]Trata-se de Michael Heinrich. Alemão, membro da Mega2, que promete para os próximos anos uma trilogia dedicada a Karl Marx.

[2]A sintética reflexão do último parágrafo devo fundamentalmente as missivas trocadas com Horacio Tarcus. As conclusões são de minha responsabilidade, porém, não as alcançaria sem esse diálogo. Por isso, agradeço-lhe.